O setor segurador enfrenta um momento decisivo. Durante décadas, as seguradoras tradicionais ditaram o ritmo, estabeleceram as regras e moldaram a experiência do cliente. Hoje, essa dinâmica inverteu-se. As ágeis Insurtech, nascidas na era digital, nativas da cloud e assentes em automação e inteligência comportamental, estão a reescrever as expectativas a uma velocidade raramente vista no setor.
Mais do que uma ruptura tecnológica, trata-se de uma mudança de mentalidade, de cultura e de comportamento do cliente. E isto exige uma reinvenção fundamental dos ecossistemas digitais das seguradoras – não apenas à superfície, mas no cerne dos seus modelos operacionais.
“O que vejo com mais frequência não é falta de ambição, mas sim ecossistemas reféns de sistemas legados, dados fragmentados e modelos operacionais desenhados para a estabilidade e não para a agilidade. É aqui que a transformação se torna verdadeiramente difícil.”

Pedro Campos
Executive Director and Head of Management Consulting at Devoteam
A vantagem das Insurtech: Criadas para a agilidade, confiança e foco total no cliente
As empresas de Insurtech, como a Lemonade, não são meramente “mais digitais”. Elas operam sob princípios operacionais totalmente distintos:
- Subscrição (underwriting) baseada em IA e regularização instantânea de sinistros
- Jornadas de cliente digital-native, desenhadas em torno da transparência e simplicidade
- Plataformas na cloud com custos marginais próximos de zero e escalabilidade ilimitada;
- Definição de preços e modelos comportamentais baseados em dados, que aprendem e se adaptam continuamente
As Insurtech não otimizam processos legados. Elas eliminam-nos.
Não desenham jornadas para fins de conformidade (compliance); desenham-nas para gerar confiança, rapidez e interações sem atritos.
Como demonstra o modelo da Lemonade, a inovação no setor segurador não se resume apenas à tecnologia; trata-se de utilizar a tecnologia para remodelar a experiência, o modelo económico e a relação das seguradoras com os clientes. Consulte a visão dos especialistas da Devoteam aqui (conteúdo em inglês).
Dito isto, a história das Insurtech não está isenta de desafios. A rapidez e a simplicidade têm um custo, e nem todas as empresas conseguem transformar a inovação em rentabilidade sustentável.
Muitas debatem-se com o aumento dos custos de aquisição de clientes, a pressão regulatória, as margens reduzidas e a complexidade de escalar produtos baseados na confiança em mercados altamente regulados. Outras descobrem que eliminar o atrito é mais fácil do que construir a lealdade a longo prazo ou a disciplina de subscrição (underwriting).
Na minha opinião pessoal:
“As Insurtech são brilhantes a reinventar o front-end dos seguros. O verdadeiro teste surge quando precisam de escalar, em simultâneo, a confiança, a rentabilidade e a gestão de risco — e nem todas superam esse desafio.”

Pedro Campos
Executive Director and Head of Management Consulting at Devoteam
A verdadeira pressão: Os clientes já estão noutro patamar
Os clientes de hoje esperam que os seguros funcionem com a simplicidade da sua app bancária ou plataforma de e-commerce favorita: decisões instantâneas, preços transparentes, interações mobile-first, comunicação proativa, zero burocracia e opções personalizadas.
Esta mudança de expectativas não teve origem no mercado segurador, mas está agora firmemente nele enraizada. Os clientes já não comparam seguradoras entre si; comparam as seguradoras com a última grande experiência digital que tiveram.
A questão para os operadores tradicionais já não é: “Devemos modernizar-nos?”
É: “Quão rápido conseguimos colmatar o gap de experiência?”
A modernização não é cosmética – é estrutural
Apesar de roadmaps claros e de intenções firmes, muitos programas de transformação no setor segurador não conseguem entregar os resultados esperados. Não porque a tecnologia seja a errada, mas porque a organização não está preparada.
“Na minha experiência, a transformação falha menos por causa da tecnologia e mais devido a políticas internas, à dívida técnica acumulada e ao medo de canibalizar as fontes de receita existentes. A modernização desafia o status quo, e é aí que surge a resistência.”
“Sem o alinhamento da liderança e a coragem de simplificar, mesmo as melhores arquiteturas acabam por reforçar as velhas formas de trabalhar.”

Pedro Campos
Executive Director and Head of Management Consulting at Devoteam
Muitas seguradoras respondem à disrupção criando apps, lançando portais ou renomeando serviços como “digitais”. No entanto, a verdadeira modernização exige uma reinvenção estrutural em quatro camadas críticas.
As quatro camadas críticas da reinvenção estrutural
1. Fundamentos Cloud-Native
Ir além da simples migração de infraestrutura para construir arquiteturas escaláveis, elásticas e modulares, que acelerem o time-to-market e reduzam a complexidade operacional.
2. Dados e IA como motores centrais de negócio
Não como laboratórios de inovação isolados, mas como inteligência de decisão end-to-end que potencie a subscrição, a definição de preços, a deteção de fraude, a automatização de sinistros e as experiências personalizadas.
3. Ecossistemas e parcerias baseados em APIs
Os modelos de seguros do futuro dependem da integração com mobilidade, saúde, smart homes, banca, cibersegurança e muito mais. As seguradoras devem evoluir de sistemas fechados para players de plataforma.
4. Simplificação de produtos e processos
A tecnologia não consegue compensar a complexidade desnecessária. A simplificação desbloqueia a agilidade, reduz custos e permite experiências de cliente em tempo real.
É aqui que as seguradoras escalam ou estagnam.
O imperativo da liderança: Reinventar com propósito e clareza
A tecnologia, por si só, não irá colmatar o gap entre os operadores tradicionais e as Insurtech. A liderança sim.
As seguradoras devem abraçar uma mudança de mentalidade:
- Da aversão ao risco para a experimentação controlada
- Das operações em silos para os ecossistemas integrados
- Da eficiência interna para o valor centrado no cliente
- Dos “projetos tecnológicos” para a transformação de negócio impulsionada pela tecnologia
Na minha experiência a liderar transformações digitais e culturais em diversos setores, o sucesso resume-se sempre à mesma questão:
Terá a liderança clareza de propósito e a coragem necessária para agir em conformidade?
As seguradoras que irão prosperar serão aquelas que alinharem a estratégia, a tecnologia e a cultura em torno de uma missão comum: oferecer uma proteção transparente, simples e relevante num mundo que exige valor instantâneo.
A perspectiva da Devoteam: A tecnologia como catalisador da reinvenção
Por toda a Europa, vemos as seguradoras a acelerar a adoção da cloud, a modernizar os seus sistemas centrais (core systems) e a operacionalizar a IA à escala.
Na Devoteam, apoiamos esta jornada combinando a consultoria em transformação digital com:
- Especialização em cloud (AWS, Azure, Google Cloud)
- Arquitetura de dados e IA
- Automação de processos e sistemas de decisão inteligentes
- Estratégia digital e design de modelos operacionais
- Transformação cultural e liderança da mudança
No entanto, o verdadeiro diferencial é compreender que a tecnologia não é o destino, mas sim o facilitador (enabler). Reinventar ecossistemas digitais não exige apenas ferramentas, mas clareza, liderança e uma visão holística do negócio. Nesta expert view, o CTO da Devoteam explica por que razão é necessária uma estratégia em vez de apenas ferramentas apelativas (conteúdo em inglês).
As Insurtech provaram o que é possível. Mas os operadores tradicionais têm algo igualmente poderoso: escala, confiança e um papel social profundo.
Quando estas forças se combinam com plataformas modernas e uma inovação centrada no cliente, o potencial de transformação é extraordinário.
O despertar: O momento de reinventar é agora
O setor segurador situa-se na encruzilhada entre o risco, a sociedade e os acontecimentos da vida. As seguradoras entram em cena quando as pessoas mais necessitam de confiança e clareza. O setor tem agora a oportunidade de se redefinir — não como uma necessidade de resposta lenta, mas como um parceiro proativo, inteligente e centrado no ser humano (conteúdo em inglês).
A oportunidade é clara: combinar a escala dos operadores tradicionais com a agilidade das Insurtech.
As seguradoras que agirem agora irão liderar a próxima década. As que esperarem herdarão sistemas, mentalidades e expectativas que já não conseguirão controlar.
O alerta para despertar já soou. O momento de reinventar é agora: com ousadia, intencionalidade e propósito.
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