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O ROI tem sido a nossa métrica de conforto há décadas.
Deu aos líderes uma linguagem comum, às administrações uma sensação de controlo e aos comités de investimento uma equação clara: retorno menos investimento, dividido pelo investimento, multiplicado por 100. Funciona bem quando a causa e o efeito são estáveis, quando os benefícios podem ser isolados e quando os prazos são previsíveis.
Portanto, deixe-me ser muito clara: o ROI não está morto.
No entanto, quando se trata de IA, o ROI já não é a métrica principal — ou, pelo menos, não numa fase inicial. Não porque a disciplina financeira seja opcional, mas porque a forma e o timing do valor mudaram.
A IA não é um investimento “clássico” em projetos. É uma mudança de capacidade, competência e mentalidade. E estas mudanças não se comportam como programas com entregas trimestrais.
O que irá ler neste artigo
- As limitações do ROI tradicional no contexto da IA
- O VOI não é um substituto para o ROI – é a ponte para o alcançar
- O problema dos ovos de ouro: Os líderes ainda investem como se o tempo fosse abundante
- O valor já não advém apenas da otimização
- O presente é demasiado rápido para “esperar para ver”
- A framework de investimento em IA da Devoteam: Um reality check útil
- A literacia é o derradeiro multiplicador de valor
- A transformação em IA não é um projeto digital com pessoas envolvidas
- De “fora da caixa” para “sem caixa”
- A verdadeira mudança: De medir retornos a criar condições
- Em resumo: O mundo já não pode ser captado nos eixos X e Y
As limitações do ROI tradicional no contexto da IA

A questão não é que o ROI esteja errado. O problema é que o ROI pressupõe condições que a IA quebra sistematicamente:
- Retornos diferidos: As iniciativas de IA podem levar meses (por vezes mais) até produzirem um impacto de negócio mensurável.
- Valor dependente da adoção: A IA só cria valor quando as pessoas confiam na tecnologia, a utilizam e sabem o que estão a fazer; por isso, a capacitação (ou a tradicional gestão da mudança) torna-se parte da equação de valor e não uma atividade secundária.
- Atribuição complexa: A IA melhora frequentemente resultados em múltiplas funções e etapas da cadeia de valor, tornando difícil isolar “um benefício” de “um investimento” específico.
- Benefícios intangíveis: Muitos dos primeiros e mais fortes efeitos da IA surgem na qualidade da decisão, na velocidade, na experiência do cliente ou na capacitação dos colaboradores — vantagens que são reais, mas que não se convertem imediatamente em receita.
- Custos variáveis ocultos: O trabalho de dados, a integração, a formação, a governance e as operações contínuas não são “extras”; são o investimento. No entanto, são frequentemente difíceis de quantificar à partida.
“Embora 65% das organizações reportem retornos positivos nos investimentos em IA generativa, o panorama geral da medição do ROI da IA permanece complexo e, frequentemente, estagnado.”
– Dataiku Report
O valor é criado na inferência, não no deployment
A IA também desafia o ROI porque o valor não é criado no momento do design ou do deployment. O valor é criado quando a IA é, efetivamente, utilizada.
Este momento, conhecido como inferência, é onde:
- as decisões são potenciadas;
- os workflows mudam;
- e o comportamento se transforma.
Se a IA não estiver a processar inferências à escala, não há adoção, não há transformação e, em última análise, não há valor, independentemente do quão avançada a tecnologia possa ser.

Patrícia Milheiro
AI Agency Strategy Director at Devoteam
Se exigir a certeza de um ROI clássico demasiado cedo, obterá frequentemente um de dois resultados:
- Interrompe prematuramente iniciativas de elevado potencial.
- Investe insuficientemente nos enablers que teriam permitido alcançar a escala.
O VOI não é um substituto para o ROI – é a ponte para o alcançar
É aqui que o VOI (Value of Investment) se torna essencial.
O VOI não nega a responsabilidade financeira; reorganiza-a. É a disciplina de responder a uma pergunta melhor:
- Que valor é que este investimento desbloqueia – agora, a seguir e mais tarde – e para quem?
O VOI reconhece que a IA cria valor por camadas:
- Algum valor é tangível (redução de custos, produtividade, receita).
- Algum valor é intangível, mas decisivo (decisões mais rápidas, melhor serviço, confiança, resiliência, valorização do talento).
O ROI mede o que é possível contabilizar claramente hoje. O VOI mede o que estamos a construir deliberadamente para que o ROI se torne inevitável amanhã.
Num mundo onde o presente já se move à velocidade que antes reservávamos para o futuro, os líderes precisam de ambos. Mas precisam deles pela ordem correta.
? O que é o VOI?
O VOI (Value of Investment) é uma framework holística que se expande para além do ROI tradicional para medir tanto os ganhos financeiros tangíveis como os ativos intangíveis, tais como a agilidade organizacional, a velocidade de decisão e a prontidão (readiness). Avalia o valor através de múltiplos horizontes temporais: curto, médio e longo prazo. O VOI atua como uma ponte que justifica o investimento em capacidades hoje, para garantir retornos financeiros amanhã.
O problema dos ovos de ouro: Os líderes ainda investem como se o tempo fosse abundante
Cada líder enfrenta a mesma questão fundamental:
Onde coloco os meus ovos de ouro?
Tradicionalmente, a resposta tendia para a previsibilidade:
- Linhas de negócio comprovadas;
- Ganhos de eficiência claros;
- Retornos de ciclo curto;
Mas a IA não recompensa a típica alocação segura. A IA recompensa a concentração estratégica.
Muitas organizações dispersam os seus orçamentos de IA: um piloto aqui, uma ferramenta ali, uma pequena experiência em todo o lado. E chamam-lhe progresso. Na realidade, é difusão.

Patrícia Milheiro
AI Agency Strategy Director at Devoteam
A transformação exige foco, porque o valor potencia-se quando:
- a responsabilidade é clara;
- as prioridades de negócio são explícitas;
- a visão de crescimento é compreendida;
- e os padrões de sucesso se tornam replicáveis.
É por isso que a abordagem “AI for all” produz frequentemente atividade, mas não impacto. A realidade é, sem rodeios, uma armadilha: as organizações executam muitos pilotos sem impacto mensurável porque ninguém assume a responsabilidade pela transformação de uma ponta à outra (end-to-end).
O VOI força uma conversa mais difícil: quais são as poucas apostas que mudam a trajetória da organização?
O valor já não advém apenas da otimização
Em ambientes estáveis, o valor advém da otimização.
Em ambientes voláteis, o valor advém da opcionalidade, que depende da agilidade, da adaptabilidade, da capacidade estratégica e da resiliência.
A IA cria valor não apenas reduzindo custos ou aumentando o output, mas sim expandindo a capacidade estratégica:
- deteção mais rápida de sinais;
- ciclos de decisão mais rápidos;
- realocação de recursos mais rápida;
- e uma aprendizagem organizacional mais acelerada.
É por isso que “preparar o futuro” já não é uma afirmação visionária. É um mecanismo de sobrevivência. Porque a verdade é esta: o presente é demasiado rápido e imprevisível para dependermos dos modelos de medição de ontem.
O presente é demasiado rápido para “esperar para ver”
Um instinto de liderança perigoso, nos dias de hoje, é a ilusão do optional delay:
“Vou esperar até que a tecnologia amadureça.”
“Vou esperar até que o ROI seja mais claro.”
“Vou esperar até que outros provem que funciona.”
No momento em que a clareza chega, a vantagem já mudou de mãos.
A IA potencia-se nas organizações que:
- aprendem mais depressa;
- institucionalizam o que funciona;
- e constroem capacidades em vez de colecionarem pilotos.
O VOI capta esta realidade porque trata a aprendizagem, a prontidão (readiness) e a adoção como valor, e não como meros “extras” desejáveis.
A framework de investimento em IA da Devoteam: Um reality check útil

Uma das razões mais comuns para o insucesso das iniciativas de IA é simples: os líderes assumem que a IA é um gasto tecnológico. A grande novidade é que não é.
A framework de investimento em IA da Devoteam torna isto explícito ao estruturar o investimento ao longo do ciclo de vida em quatro pilares: Tecnologia, Dados, Pessoas e Governance.
Isto é fundamental porque o valor colapsa se faltar um dos pilares:
- Tecnologia sem dados torna-se apenas uma demonstração.
- Dados sem pessoas tornam-se um ativo não utilizado.
- Pessoas sem governação tornam-se um risco.
- Governance sem adoção real torna-se burocracia.
A natureza dinâmica do TCO
É aqui que o Total Cost of Ownership (TCO) deve ser entendido como dinâmico e não estático.
Na IA, os custos evoluem com:
- a adoção;
- a utilização de inferência;
- a maturidade;
- e a literacia.
O aumento dos custos operacionais nem sempre é um sinal de alerta; em muitos casos, reflete a utilização real e o valor incorporado.
O risco não é o crescimento do custo; o risco é a baixa utilização causada por uma má capacitação (enablement).
No ecossistema da IA, quanto mais se usa, mais se gasta, mas também mais valor se pode gerar. Dito isto, devemos monitorizá-lo — especificamente através de FinOps — e identificar como otimizar a solução, garantindo que a utilização permanece elevada de uma forma mais eficiente em termos de custos.
A framework também obriga à honestidade sobre os custos em todas as etapas: configuração do ambiente, implementação e operações contínuas.
E obriga à maturidade quanto ao retorno: tangível e intangível, porque os retornos da IA são inerentemente multifacetados.
Por outras palavras: isto não é uma “calculadora de ROI”. É um soro da verdade para o investimento.
A literacia é o derradeiro multiplicador de valor
Eis o que demasiadas organizações subestimam:
Quanto maior for a literacia em IA de uma organização, mais valor a mesma consegue perceber e captar.
O valor da IA não é evidente por si só; tem de ser interpretado, confiado e operacionalizado.
Sem literacia, as equipas, ou:
- confiam em demasia na IA (risco);
- desconfiam da IA (desperdício);
- tratam-na como “apenas mais uma ferramenta” (falta de alavancagem).
Com literacia:
- os líderes fazem perguntas melhores;
- as equipas identificam casos de uso de maior valor;
- a adoção acelera;
- e o valor torna-se visível mais cedo.
É por isso que a literacia não é apenas formação — é capacitação económica.
Quando as pessoas sabem o que fazer, como fazer e onde a IA realmente se enquadra, a organização deixa de debater se o valor existe e começa a escalá-lo. Vai além do human-in-the-loop, para tornar o loop mais humano.
A transformação em IA não é um projeto digital com pessoas envolvidas
Sejamos claros, as transformações de IA são projetos de pessoas capacitados pela tecnologia.
A IA altera:
- a forma como o trabalho é executado;
- como as decisões são tomadas;
- quais as competências que importam;
- como as funções evoluem;
- e como se constrói a confiança.
Portanto, as alavancas da liderança também mudam:
- de uma comunicação de “transmissão” para uma comunicação de atribuição contínua de sentido (sensemaking), que dê conforto para falhar e refazer;
- de uma requalificação periódica para uma construção contínua de capacidades;
- de planos de mudança top-down para uma liderança de mudança adaptativa.
É por isso que a gestão da mudança não é uma “fase”. É um motor de valor. Atrevo-me até a dizer que a “velha” gestão da mudança é apenas uma forma estática de olhar para esta reinvenção do nosso mundo. Porque já não gerimos a mudança como antes. Nós capacitamos as organizações para extraírem valor da IA, de forma contínua.
De “fora da caixa” para “sem caixa”
Gostamos de dizer aos líderes para “pensarem fora da caixa”.
Esse conselho pressupõe que a caixa ainda existe; que o mundo ainda pode ser captado nos eixos tradicionais de X e Y, nisto ou naquilo — escolhas binárias com limites claros. Mas já não é assim.
O mundo já não é X e Y.
A IA dissolve fronteiras:
- entre funções;
- entre estratégia e execução;
- entre planeamento e aprendizagem;
- entre o julgamento humano e a potenciação pela máquina.
O desafio agora não é pensar fora das restrições, mas sim liderar num mundo sem restrições predefinidas.
O VOI é uma das poucas lentes que realmente se ajusta a esta realidade, porque não finge que o valor é sempre imediato, isolado ou puramente financeiro.

Patrícia Milheiro
AI Agency Strategy Director at Devoteam
A verdadeira mudança: De medir retornos a criar condições
Esta é a mudança de liderança que a IA exige:
| De | Para |
|---|---|
| Medir resultados após os factos | Criar as condições onde os resultados se tornam inevitáveis |
| Provar o valor apenas quando existe certeza | Investir no valor antes de existir certeza |
O ROI continua a ter o seu papel, especialmente quando as soluções já estão estáveis, adotadas e escaladas. Mas o VOI é a forma como se tomam as decisões nas fases iniciais e intermédias, que determinam se o ROI chegará sequer a concretizar-se.
Num mundo onde o presente se move mais depressa do que os nossos antigos modelos de planeamento, os líderes não ganham por preverem melhor.
Ganham ao construírem organizações que estão preparadas para mais do que um futuro. Por outras palavras, ganham ao construírem organizações capazes de se adaptarem e de terem um bom desempenho em diferentes cenários possíveis, e não apenas num único cenário previsto.
E é isto que significa liderar “sem caixa”: desenhar a jornada da IA à medida que o caminho se revela.
Em resumo: O mundo já não pode ser captado nos eixos X e Y
- A IA não está a mudar a forma como calculamos o valor; em vez disso, está a mudar a própria natureza do valor.
- O ROI continua a ser importante, mas chega demasiado tarde para guiar as decisões que moldam verdadeiramente o sucesso. O VOI ajuda os líderes a decidirem onde investir, o que priorizar e como se prepararem num mundo onde a mudança é constante e os resultados não são lineares.
- Hoje, o valor advém das alavancas de negócio, do foco, de pessoas que compreendem o que estão a fazer e de organizações que investem em capacidades antes de existir certeza. Advém da literacia, da confiança e da capacidade de nos adaptarmos mais depressa do que o ambiente que nos rodeia.
- A liderança já não se trata de prever o futuro; trata-se de construir organizações capazes de criar valor em múltiplos futuros possíveis, começando agora.
O mundo já não pode ser captado nos eixos X e Y. A “caixa” já não existe.
A IA exige uma compreensão mais rica sobre como criar e gerir valor e, para isso, temos o VOI.

Patrícia Milheiro
AI Agency Strategy Director at Devoteam
